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09/04/2013

A vida às margens do Rio Juruá



Por Juliana Casado, estagiária do Programa Manejo Florestal

A viagem começou em Manaus e durou cinco horas em um pequeno avião bimotor. Lá de cima, não se via nada além de quilômetros e quilômetros de floresta, recortada, em todas direções, por uma infinidade de rios de tamanhos, formas e cores variadas. O destino era Carauari, uma cidade de aproximadamente 25 mil habitantes, situada no sudoeste do estado do Amazonas, às margens do rio Juruá. Nesse município localizam-se a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari e a Reserva Extrativista (Resex) do Médio Juruá.

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O intuito da viagem foi o de coletar informações para o estudo sobre todas as etapas, processos e custos envolvidos na cadeia de produção do óleo de andiroba e da manteiga de murumuru, realizada pelas populações ribeirinhas das duas unidades de conservação. Na realidade, em fevereiro, época da viagem, à que se dá a frutificação e queda das sementes da andiroba, cujo nome científico “Carapa guianensis” ou “Carapa profera”. A fase de reprodução do murumuru (Astrocaryum murumuru) já havia sido analisada na época da seca, nos meses de julho e agosto.

>>Confira também o post “Bem ali em Carauari

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Não pude disfarçar meu espanto de recém-chegada diante da exuberância desse bioma tão magnífico. De imediato percebi que teria de reformular diversas ideias pré-concebidas a respeito do local, como aconteceu em relação aos ribeirinhos do rio Juruá. Antes de conhecer o local, imaginava as pessoas nadando no rio, banhando-se muitas vezes ao dia, crianças brincando na água… Porém, logo ao chegar, percebi que o rio é muito importante em suas vidas (como é de se imaginar), a forma como eles convivem com ele, no entanto, é muito diferente do que eu pensava. As águas do rio são usadas para todo o tipo de atividade, desde locomoção até para preparo de alimentos e banho. Entretanto, essas mesmas águas impõem certo distanciamento pelos perigos que nelas existem. São vários relatos de jacaré, candiru (ou Vandellia cirrhosa, espécie de peixe que pode penetrar no canal urinário das pessoas), peixe elétrico, banzeiro (ondas do rio), piranha e muitos outros seres e situações que podem ser encontrados naquele rio. Poucas eram as comunidades onde podíamos ver crianças brincando à vontade nas águas.

Foi impressionante notar a influência que o ciclo das águas exerce sobre tudo e todos. As estações do ano, primavera, verão, outono e inverno são então denominadas como vazante, seca, enchente e cheia; já que o nível das águas, sem sombra de dúvida, o fator que mais influencia o ambiente. As paisagens se tornam quase irreconhecíveis em diferentes épocas do ano, mudam também o comportamento dos animais e as atividades das pessoas em função disso.

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Na coleta e beneficiamento, essa dinâmica não seria diferente. Toda a logística existente na cadeia, principalmente nas fases de coleta e transporte, têm de ser adaptadas ao ciclo das águas, mesmo porque a coleta do murumuru ocorre na seca, enquanto que a da andiroba, na cheia. Devido a esse fato, podemos considerar que a coleta do murumuru é mais trabalhosa, já que os barcos que transportam as sacas cheias de sementes e o produto final não conseguem chegar tão próximos das comunidades, devido ao baixo nível dos rios, e os trechos secos a serem percorridos com as sacas muitas vezes são bastante íngremes e lamacentos. Há também, como fatores que dificultam o trabalho, os aspectos morfológicos da planta: muitos espinhos e sementes pequenas.

Por esses e outros motivos menos relevantes, durante as conversas nas comunidades, ouvimos de vários coletores sobre a preferência pelo trabalho com a andiroba. Entretanto, ambos servem como forma de complementação da renda familiar, que varia entre a produção e comercialização de farinha de mandioca e peixe em sua maior parte.

Geralmente, a queda das sementes da andiroba acontece um pouco antes da época da cheia, assim os coletores conseguem realizar a coleta com o solo ainda seco. Porém, logo nas primeiras visitas constatamos que, devido a uma variação na dinâmica do rio, o nível da água já havia subido e os andirobais já estavam alagados e em muito deles as sementes não puderam ser coletadas propriamente, pois a água era tanta que formava correntes e dispersavam as sementes ou as arrastavam para reas mais distantes.

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As visitas às comunidades aconteceram com base em uma certa rotina: chegar nas comunidades pela tarde, fazer a reunião com os coletores no início da noite, momento em que aplicávamos os questionários sobre segurança e custos envolvidos na coleta, além de obtermos outras informações sobre essa etapa. Feito isso, jantar e cama! Quer dizer… rede! Então, pela manhã, realizávamos as atividades restantes nas áreas de coleta e mais uma vez estávamos de malas arrumadas para partir. Foi assim que passamos por 10 comunidades. Cada uma com suas particularidades, mas todas muito parecidas em alguns aspectos, como a simplicidade das pessoas, a receptividade e a vontade de nos deixar à vontade, mesmo que sob olhares curiosos e, muitas vezes, indiscretos, ávidos por saber um pouco mais sobre aqueles visitantes.

De maneira geral, percebi que a população ribeirinha local é bastante ativa em relação ao extrativismo, atividade que, quando feita de maneira adequada, traz diversos benefícios à região, melhorando a qualidade de vida das pessoas e contribuindo para a valorização e consequente proteção da floresta e do conhecimento popular.

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